Irpin, um ano depois do início da invasão russa Rebecca Abecassis
A atividade editorial vai levar Snu a confrontar-se com Portugal. Faz contratos escritos aos autores, arrisca editar desconhecidos e não olha a questões políticas na hora de escolher aqueles que vão trabalhar consigo. No seu apartamento da Rua Dom João V e na Dom Quixote, Snu interpreta esse mundo na escala e nas circunstância de Portugal. A casa onde Camus foi jantar depois de ter recebido o prémio Nobel. O mundo onde pontua o padrasto, Tor Bonnier, um dos grandes editores do norte da Europa.
PÚBLICO
Sabe-se também que por debaixo daquela imagem de uma nórdica, inacessível e reservada, estava uma mulher que gostava de participar activamente na discussão política. Publicava obras que eram interditas e quando PIDE ia às instalações da editora, ela trazia os livros para casa, na mala do carro, e escondia-os debaixo da escada, para ninguém os encontrar. Cresci a ouvir o meu pai a falar inglês com a minha mãe, depois, fiz a escolaridade obrigatória no Liceu Francês. Confie na informação rigorosa que o ajuda a entender todas as mudanças que este novo normal traz à sua vida. Em tempos de incerteza, o jornalismo do PÚBLICO faz as perguntas certas para dar resposta às dúvidas dos portugueses.
Snu nunca se rebelou contra esta mãe que parece, como disse, um pouco intimidatória? Por um lado traz esse background da edição, e por outro lado chega a um país onde isso está por fazer. São pequenos livros que não são ficção, que vão buscar artigos à imprensa internacional. Os Cadernos da Dom Quixote são um pouco os livros da Penguin Books. Também é na edição, e não na escrita – e o pai era jornalista – que Snu acaba por se afirmar.
Lisboa tão, tão italiana
- As traquinices de Mikaela e depois a sua revolta vão colocar em questão esta utopia de uma ordem natural que flui, seja dentro de casa, seja entre gerações.
- Se a classe política teve alguma dificuldade em aceitar a relação entre Sá Carneiro e Snu, o mesmo não se pode dizer dos portugueses, que rapidamente se ‘apaixonaram’ pelos dois.
- A ideia com que fiquei é que o pai de Snu era afectuoso.
- E contava o tempo que era necessário passar para que pudessem casar.
- Que tipo de comentários é que lhe costumam fazer?
Mas à medida que os anos passavam e que o interesse por ela aumentava, os apelidos tornavam-se desnecessários e ela foi-se tornando apenas Snu. O casamento que a traria a Portugal acrescentou-lhe o apelido Abecassis. Todos eles procurando iluminar a história dessa mulher que os portugueses diziam ser sueca, mas que, na verdade, nascera na Dinamarca.
Comentários
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Mesmo sabendo que a sua carreira política poderia ficar ameaçada, Sá Carneiro não desarmou nunca, chegando a dizer inclusive em 1977 que «se a situação for considerada incompatível com as minhas funções, escolherei a mulher que amo». A «Princesa que veio do frio», como se referiam a ela, era uma mulher obstinada, forte e cheia de vida. Este livro, em particular, será para os meus filhos, sobrinhos e futuros descendentes um documento fundamental para compreenderem quem foi Snu Abecassis e o que tentou fazer para tornar Portugal num país melhor. Juntamente com Francisco, foi viver para casa do pai, onde ficou até completar o liceu. (O meu pai estava a fazer obras em casa, para acolher os dois.) Temos uma ligação muito forte.
As duas personalidades colidem a tal ponto que Snu, depois da separação, expulsa a filha mais velha de casa. Não, essa filha é mais parecida com o pai, que é um ser extrovertido, cheio de humor, voltado para fora. Mas como era ela enquanto mãe? O que me interessava era a vida dela. O Cessna tem toda uma trajectória, que traça no livro, rocambolesca, duvidosa. As questões centro de saude belas da segurança eram suficientemente sérias para ela falar delas à mãe.